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domingo, 21 de julho de 2013

A CAPTURA DE JOÃO ARAPUÁ


A seca de 1877 foi a mais severa estiagem de todos os tempos, milhares de pessoas perderam suas vidas em todo Nordeste. No Ceará, famílias inteiras fugiam de suas terras em busca de sobrevivência em outros lugares. O Sítio Cachimbo, encravado na grota do Espírito Santo no recém criado município de São Pedro do Cariri (atual Caririaçu-Ce) foi palco de um triste episódio, onde praticamente uma família inteira - oriunda do sertão do Jaguaribe - foi dizimada pela fome.

Com o passar da estiagem Bartholomeu Ferreira resolve vistoriar as terras da família e pega o Caminho a cavalo seguindo o Rio São Lourenço e Riacho Comprido subindo o trajeto até o Cachimbo e chegando lá, de longe, percebe a movimentação estranha de um menino de aproximadamente treze anos de idade entrando no mato e desaparecendo no meio da caatinga.  O velho Berto imediatamente recua, e em dado momento retorna e esconde o cavalo debaixo de uma frondosa árvore e depois fica do alto de um serrote observando e esperando a tarde inteira a suposta reaparição do jovem.

O sol já está quase sumindo quando o menino de cor preta e cabelo crespo chega de mansinho e fica distraído observando a paisagem. Enquanto isso Bartholomeu percebendo a forma primitiva de vida do jovem, prefere ter paciência e procura entender se ali existiam outros indivíduos em sua companhia, percebendo depois com o passar do tempo, já totalmente escuro, que se tratava de um único exemplar.

A idéia que vinha na cabeça era pegar o menino. Fazer como se faz com um animal selvagem. Talvez o momento fosse único e não podia ser desperdiçado. Até que em um dado momento o negrinho se aproxima e entra na boca de um forno velho desativado, como se lá fosse sua cama. O experiente sertanejo prefere aguardar um pouco para dar o bote, depois se aproxima, prepara o ataque e se agarra com a presa. O menino assustado retruca, dar pinotes, berra, tenta soltar-se, mais acaba se rendendo depois de amarrado.  Bartholomeu, sua esposa Madalena e os filhos recebem com carinho o menino, ele cresce tornando-se depois uma pessoa de confiança da família, ajudando nas lidas diárias e convivendo harmoniosamente com a comunidade. Relatou depois que seu nome era João e que foi o único que escapara de uma numerosa família que estava convivendo na Grota do Cachimbo depois de viajar várias léguas desde a região do Jaguaribe em busca de terras férteis no Cariri. Talvez, por ter o cabelo bastante embaraçado acabara sendo apelidado de João Arapuá.

Anos depois o jovem retornou ao Cachimbo fortemente armado acompanhando Bartolomeu no episódio bastante conhecido quando o Coronel Belém do Crato tentou demarcar indevidamente as terras do São Lourenço e foi interrompido graças à resistência da comunidade.






segunda-feira, 7 de setembro de 2009

BARTHOLOMEU FERREIRA DA SILVA X CORONEL JOSÉ BELÉM DE FIGUEIREDO: O COMBATE QUE NÃO SE TRAVOU


ILUSTRAÇÃO: Bartholomeu/Pedro Cunha



Bartolomeu Ferreira nasceu em 1846 no Sítio São Lourenço, município do Crato. Era filho de Pedro Ferreira e D. Sinhara ou Dindinha, como também era conhecida. Casou-se com Maria Madalena e tiveram José, Pedro, Maria do Carmo, Luca, Maria e Joaquinha. Conseguiu interferir na demarcação ilegal de terras feita pelo Coronel José Belém de Figueiredo, audacioso chefe político do Crato. O destemido coronel ao chegar à divisa das terras que hoje pertencem a Raimundo Araújo da Costa, conhecido por Mundinho de Odilon, seguido por uma dezena de jagunços fortemente armados, foi informado da presença de Bartholomeu, que estava acompanhado de Joaquim Barbosa de Milagres – conterrâneo de Belém, e que também era conhecido pelo seu comportamento esquentado. Felizmente o combate não se travou. O coronel mudou o rumo e graças a este episódio o São Lourenço continuou nas mãos dos seus verdadeiros donos, diferentemente de outras localidades circunvizinhas onde os pequenos proprietários não tiveram a mesma sorte, foram obrigados a vender suas glebas de terra por preços bem inferiores ou então seriam expulsos sem nenhum direito. Na conversa com Bartolomeu, Belém disse que já o conhecia, já ouvira falar de sua coragem, inclusive da vez que ele teria trazido uma mulher morta na garupa do cavalo, do Bom Jesus ao São Lourenço, amarrada com um lençol e o queixo batendo nas costas.


Nota: Conforme depoimentos orais, a mulher transportada por Berto chamava-se Berbela. Era ela quem fazia partos na região do São Lourenço e Bom Jesus. Outra informação que precisa ser checada é que ela pertencia a um grupo de escravos adquiridos por Pedro Ferreira e posteriormente beneficiados com a liberdade.







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