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sábado, 21 de janeiro de 2012

Despachos e Catimbós de Frei Junípero - por José Maria Vasconcelos


Convento de São Benedito - Teresina/PI

Na década de 1950, Teresina, de uns 100 mil habitantes, praticamente acabava no Aeroporto, Buenos Aires, Iate Clube, final da Avenida Frei Serafim com o Rio Poti, Vermelha, Piçarra. Aos domingos, a partir das 4 da madrugada, a cidade, tocada pelos românticos sinos da Igreja S. Benedito, quebrava o gélido silêncio para a missa das cinco. Meu pai, Martinho, montava a criança na garupa da bicicleta, partíamos da distante Piçarra para o dever dominical. Bundinha penava no trépido calçamento da Avenida Frei Serafim.

Eu me sentava próximo ao altar. Encantavam-me os lampadários acesos, as dezenas de figuras pintadas na abóbada do templo, o coreto elevado no fundo da igreja, ao som do teclado e muitas vozes. Ao lado do altar, Frei Junípero, baixinho, gordo, barbicha, olhos asiáticos e agitados, irmão leigo, sem letras, sem sacerdócio, batina surrada, terço nas mãos, ajoelhado, extremamente ingênuo e atabalhoado, sempre atento às coisas e criaturas estranhas por perto. Ai de quem se ajoelhasse por trás do frade, ele mirava o malvado, sentia agourentos presságios: “Sai daqui, seu catimbó!” Naquela época, empurrão de padre ou de gente velha valia como lição de vida. Todo mundo suportava.

Os sacerdotes do Convento S. Benedito divertiam-se com as catimbas de Frei Junípero. Bastava um guarda-chuva escancarado, no tablado de madeira do andar superior do convento, para Frei junípero desesperar-se, acender velas, espalhar sal, detonar a fúria paranoica. Certo dia, quase lincha Frei Virgílio, que lhe colocara um pano preto à porta da cela. Frei Junípero enfureceu-se, bateu-lhe com as sandálias e enterrou um feitiço na horta.

Nesta semana, Frei Hermínio, residindo em Roma, contou-me por email, que o esquizofrênico frade, uma vez, no Convento de S. Sebastião, em Parnaíba, danara-se com sacerdote que cultivava uma trepadeira mui florida. De madrugada, Frei Junípero dirigiu-se ao pomar, cortou as raízes da planta, enterrando a ponta do caule com algum feitiço. A coitada murchou, espantando catimbó, aliviando pobre frade.

Se você pensa que mosteiros só abrigam santinhos e angelicais figuras de carne e osso, engana-se. As clausuras também se iluminam de luzes infernais. Se o demônio tentou Eva, em jardim paradisíaco, e Jesus, na gruta do jejum, imagine frades, freiras e pastores. Nós, emplumados de hipocrisia farisaica, especialmente apontando escândalos do clero, esquecemos safadezas e corrupções, no território familiar e profissional.

Quando abordo trapalhadas e catimbozeiras em redor do altar, não tento tripudiar a fragilidade humana, seja padre ou freira, personagens da minha estimação literária, pela convivência feliz com essa gente, que me abriu veredas do bem, mesmo me apavorando com velas pretas.

Frei Junípero faleceu em 1986, em Juazeiro do Norte, terra de seu apaixonado Padim Ciço, a quem invocava despachos e catimbós, fonte de tantas superstições. E chamam isso de fé.

Fonte:http://teste.brasilportais.com.br/blog-literario/6

FREI JUNÍPERO PEREIRA

(Gregório Pereira da Cunha)
Nasceu: 03 de janeiro de 1900 em São Pedro do Cariri-CE
Faleceu:24 de junho de 1986 em Juazeiro do Norte-CE



Ainda jovem, com 27 anos, foi acolhido como postulante no Convento do Sagrado Coração de Jesus em Fortaleza. Fez sua primeira profissão no dia 26 de agosto de 1939. Residiu em todos as casas trabalhando na cozinha, no refeitório, na horta e na portaria. No começo de 1979, já ancião, foi transferido para Juazeiro do Norte-CE, onde ele próprio testemunhava dizendo: “passo o dia rezando”. “Estou me penitenciando”. Pouco se sabe sobre a vida escondida deste confrade, um testemunho de um contemporâneo seu é de que: “era um homem de oração e um bom cozinheiro.

Faleceu aos 86 anos de idade.

Fonte: http://www.procepi.org.br/necrologio.php

sábado, 22 de agosto de 2009

FREI JUNÍPERO


Foto: Joana, Isabel, Simplício e Frei Junípero


Frei Junípero nasceu em São Pedro do Cariri, hoje Caririaçu-Ceará aos 24 de Dezembro de 1899, do casal Pedro Pereira da Cunha e Mônica Clarinda de Jesus, piedosos e honrados agricultores.
Ainda jovem, entrou no convento do Sagrado Coração de Jesus em Fortaleza, como postulante e irmão não clérigo, na Ordem Capuchinha. Aos 24 de Agosto de 1938 ingressou no noviciado em Esplanada-Bahia - e, aos 19 de Março de 1944 fez os votos perpétuos.
Seu primeiro convento, após o noviciado, foi o de Turiaçu, no Maranhão. Ainda me lembro - era eu menino de poucos anos. A comunidade do convento de S. Francisco Xavier naquela cidade era constituída por Frei Lourenço de Alcântara, Frei Pedro Batista de Cologno al Sério e Frei Junípero de São Pedro do Cariri, encarregado do serviço fraterno.
Residiu em todos os conventos. Por vários triênios trabalhou no convento de S. Benedito em Teresina-Piauí. Em 1962 quando terminei o noviciado, encontrein Frei Junípero integrando a Fraternidade do Seminário Maior em Parnaíba-Piauí; como refeitoreiro. Em nossas conversas procurei recordar os albores da sua profissão temporária em Turiaçu.
Sei muito pouco sobre o nosso irmão. Apenas posso dizer que era um homem de oração e bom cozinheiro. "Os irmãos... trabalham com fidelidade e devoção de maneira que afugentem o ódio, inimigo da alma, e não percam o espírito de oração e piedade..." (Regra, cap. 5)
Seu corpo delibetava-se aos pocos sob o peso da idade. Por várias vezes esteve hospitalizado. Temendo a visita inesperada da irmã morte, o ano passado, em novembro, por ocasião da festa das almas, pediu a Frei Roberto Magalhães, seu companheiro de noviciado que lhe administrasse a Unção dos Enfermos. Há quase dois anos, estava postado sob os cuidados dos seminaristas que tinham especial carinho para com ele.
Todos os dias, eu e ele, nos entretinhamos em conversa fraterna. As vezes lhe faltava a memória, trocava os nomes das pessoas. E, no momento de lucidez, lembrava-se de tudo com vivacidade de espírito e, nessa ocasião, recebia a Sagrada Comunhão com devoção. Acompanhava as orações com atenção, repetindo comigo as palavras. A ação de graças, eu percebia pelo movimento dos lábios e pelo recolhimento, e sentia, pela serenidade do seu rosto, a profundidade da sua fé: "Seja a vossa uma vida de oração, de trabalho e sacrifício, para serdes homens espirituais agradáveis a Deus". (S. Boaventura)
Sentia dores e incômodos. Não se queixava. Certa vez, perguntei-lhe: "Como vai Frei Junípero?" Ele me respondeu: "Estou me penitenciando! Não tenho pecados mortais".
Dia 23 deixou de se alimentar. Embora chamado, não abria mais os olhos. O médico avisou que o fim estava próximo. Recomendei aos seminaristas que não o deixassem só. Em profunda sonolência passou o dia 24 até que, às 20h 20min, entregou sua alma a Deus.
Dia 25, após a Santa Missa de corpo presente, concelebrada às 15h no Santuário de S. Francisco das Chagas, o féretro saiu carregado a mão por uma multidão de fiéis que o levaram rezando e cantando até o cemitério de N. Sra. do Perpétuo Socorro, onde foi sepultado.

Juazeiro do Norte-Ceará, 24 de Julho de 1986
Frei Demétrio Fernandes Marques

FONTE: Texto reproduzido tipograficamente e distribuido aos parentes e amigos no Santuário de São Francisco em Juazeiro do Norte

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